segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Rio é a mais nova animação do brasileiro Carlos Saldanha, responsável pelos dois últimos filmes da triologia "A Era do Gelo". Além de ser seu maior sucesso comercial, é também seu trabalho melhor executado. A técnica funciona e o roteiro é entreternimento puro.
Um cenário carioca aqui é belo, exótico e pitoresco como é próprio para um filme infantil. Na história Blue é uma arara azul criada no norte dos Estados Unidos. Com sua espécie em extinção, um pesquisador brasileiro vai atrás de sua dona para poder levar Blue até o Rio de Janeiro, onde então poderá acasalar com uma arara azul fêmea.
O longa cumpre a proposta: para se ver com a família. É divertido, as imagens são belas e as músicas empolgantes. Não é a toa que ganhou o que ganhou nas bilheterias. Uma pena que tanto estardalhaço se faça de Santoro e tão pouco de Saldanha, que nos representa tão bem.

Rio recebeu 1 indicação ao Oscar: Melhor Música


domingo, 29 de janeiro de 2012

É satisfatório perceber que o mundo das animações desistiu da ambição que surgiu lá pela metade dos anos 2000 de fazer a melhor animação de todos os tempos. Ratatouille, Wall-e e Up flertavam com o ideal de uma animação completamente matura que crianças curtissem e que os adultos refletissem. Nada contra essas obras, muito pelo contrário, Up, por exemplo, alcançou patamares de qualidade inéditos até mesmo pra uma empresa antiga no ramo como a Disney. Mas desde Toy Story 3 a empresa deixou claro que não precisavam mais disso e que a despretensão lhes caía muito bem. Na Dreamworks o filme dos olhos foi o fabuloso "Como Treinar Seu Dragão" e o seu retorno a confortável zona do pipocão foi "Kung Fu Panda 2".
É isso que ocorre. O filme herda a maturidade ganha pelos seus animadores nos últimos anos e ainda assim não quer forçar as lágrimas pra fora de seus olhos a todo momento. Mas não é que consegue mesmo sem tentar? A trama emocional que envolve a adoção do protagonista é adicionada sem naturalmente ao longa. Não forçou a barra, não teve um foco desnecessário, simplesmente caiu bem. No decorrer da animação o fenômeno se repete. Uma sucessão de piadas, cenas e lições que funcionam. E isto basta.
O progresso feito pela Dreamworks é claro se em comparação ao antecessor, lançado em 2008. O filme diverte e toca. Garantindo uma hora e meia de várias boas risadas, Kung Fu Panda 2 é show de bola.
Kung Fu Panda 2 recebeu uma indicação ao Oscar: Melhor Animação
Não vou resistir em comparar a coragem do cinema e da televisão americana com a covardia desses meios no Brasil. Neste mês a Rede Globo lançou a minissérie "O Brado Retumbante", uma pretensa crítica a Brasília atual que mais parece uma piada da direita. Apesar da produção global ser clara em relação a suas posições, ela mantem a antiga política da emissora de não citar partido ou lado (direita e/ou esquerda). Não sei o que é pior, ter uma mídia que não se assume, ou a necessidade de que ela não se assuma pelo poder de influência na população que ela detem.
Pois George Clooney dirigiu e estrelou um filme cuja intensão lembra a minissérie em certo sentido. Mostrar que a política é podre é simplesmente atestar o óbvio, mas é na forma como se mostra que diferencia Clooney da família Marinho. E ele não tem receios em citar partido. Melhor, a história foca nas esperanças e decepções em torno dos democratas, ao qual o astro defende em entrevistas sempre que pode.
O longa remete em seu título original (The Ides of March ou As Conspirações de Março) ao assassinato de Julio Cesar na Roma Antiga como também à época na qual as eleições primarias americanas (cenário deste filme) pegam fogo. Stephen Meyers (Ryan Gosling) é o chefe da campanha de Mike Morris (Clooney), pré candidato a presidência dos Estados Unidos. Apesar de Meyers ter uma carreira longa o bastante para estar familiarizado com o jogo político, ele acredita verdadeiramente em Morris como a melhor opção para o cargo. Até descobrir acidentalmente algumas roupas sujas do governador. A trama então sofre uma boa reviravolta e se desenrola até o confronto entre os dois personagens no qual o protagonista solta a máxima que define o filme e todos os anos de política norte americana: "Você pode mentir, você pode trapacear, você pode começar uma guerra, você pode mergulhar o país em uma crise econômica, mas você não pode transar com a estagiária. Eles vão te pegar por isso." 
Tudo Pelo Poder tem uma lista de qualidades, quase todas passam pela direção firme de Clooney. O seu futuro como diretor se mostrou promissor desde "Boa Noite, Boa Sorte" e além. Seu elenco (todo excelente) parece sempre saber suas funções nas cenas. Engraçado como o modo do diretor de dirigir seus atores pode ser avaliado sempre pelo nível da atuação de Evan Rachel Wood. Clooney parece sempre saber o lugar certo para colocar a câmera, isto as vezes incomoda, deixa uma falta de unidade para a fotografia do filme.
No fim, um longa que merece aplausos. Dos mais fortes e mais corajosos de 2011.
Tudo pelo Poder recebeu uma indicação ao Oscar: Melhor Roteiro Adaptado

sábado, 28 de janeiro de 2012

Não é difícil de se reconhecer na história do cinema os pontos altos da comédia. Chaplin, Irmãos Marx, Billy Wilder, Beatles, Monty Phyton e o politicamente incorreto Sacha Baron Cohen. Todos homens ou grupos de homens com uma rara presença feminina como Marilyn Monroe e a hilária Jaime Lee Curtis. Apenas nos anos 90 dois programas de TV mudaram este cenário machista. Primeiro, o sucesso comercial de Sex and the City, uma série protagonizada apenas por mulheres. O mais importante, porém, foi um programa de auditório semanal chamado Saturday Night Live. O programa existe ainda hoje e se divide em esquetes humorísticos para satirizar a política e a sociedade americana. O seu produtor, Lorne Michaels, fazia questão de que a equipe do programa não tivesse uma divisão pré concebida de homens e mulheres, entraria quem fosse engraçado. Dele surgiu um verdadeiro desfile de humor feminino com Tina Fey, Amy Poehler, Rachel Dratch e a protagonista e roteirista de Missão Madrinha de Casamento: Kristen Wiig.
E o filme pertence inteiramente a ela, que em nenhum momento decepciona. É uma comédia inteligente, de assimilação fácil, elenco afiado e, o mais importante, extremamente engraçada. É surpreendente como eles conseguiram construir um roteiro que tranforma uma já batida piada escatológica numa cena hilária. Ponto pro roteiro, ponto pro oscar por indicá-lo, ponto pra Wiig e todas as suas colegas de elenco, ponto pro público americano que soube acolher calorosamente este filme nas bilheterias e ponto pra Judd Apatow por mais um bom longa no currículo. Há muito tempo o cinema não tem um filme como esse. A visão feminina do casamento não se repete aqui da forma que se repete em todas as outras comédias-românticas. A personagem principal, embora adorável, é cínica, mesquinha e invejosa. E por isso também verdadeira. O público se identifica, compreende e fica na torcida por ela durante toda a projeção. Por tudo isso eu digo aos que ainda não perceberam: mulheres tem senso de humor sim e a prova está aí em um dos melhores filmes do ano.



Missão Madrinha de Casamento recebeu 2 indicações ao Oscar: Melhor Atriz Coadjuvante (Melissa McCarthy) e Melhor Roteiro Original

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Toda Forma de Amor é realmente aquilo que implica o seu título original: um filme sobre iniciantes (Beginners). Nele nós acompanhamos três momentos da vida de Olive (Ewan McGregor) que se misturam no curto tempo de projeção. Sua infância ao lado da frígida mãe, sua relação com pai, Hal (Christopher Plummer), quando este aos 70 anos assume ser gay e seu caso amoroso com a atriz Anna (Melaine Laurant) logo após a morte do pai. São três núcleos que misturados desenvolvem o protagonista da infância a idade adulta num conto sobre recomeço.
O resultado é um filme bastante delicado no melhor sentido. A dor do luto de Olive está presente em todos os momentos, até mesmo nas memórias. O modo como ele desenvolve a relação com o pai e com Anna estão sutilmente ligados. O auge da trama é quando após a já anunciada morte de Hal a tela se enche em cores que mudam de acordo com a narração de Olive. Vida. Cura. Luz. Natureza. Harmonia. Espírito. Sexo. Arte. São todos elementos presentes no filme, e com a passagem das cores você sente cada uma dessas palavras.
Para o alcance de tais emoções o trabalho do elenco foi primordial. McGregor em um dos melhores papéis de sua longa carreira. Laurant entrega a personagem em cada sorriso. E o que dizer de Plummer? Tão delicado, tão sofisticado, tão tocante e ainda tão cômico. Toda Forma de Amor é um belo filme de lindas lições, gostaria que se produzisse pelo menos um desses por ano.

Toda Forma de Amor recebeu 1 indicação ao Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)





Abdico aqui de toda a minha credibilidade ao me declarar como fã absoluto da obra de Stieg Larsson. Não satisfeito ainda acrescento: Ficher não fez um filme que eu não gostasse, nem mesmo Quarto do Pânico. Já tivemos várias provas do seu talento em direção, sendo a mais recente o maginífico A Rede Social. Portanto, como uma tentativa de criar certo equilíbrio, vou começar falando dos defeitos desta união, antes de vomitar todos os elogios.
A versão de Fincher foi menos do que poderia ter sido. Foi próxima demais do livro, consequentemente próxima demais da versão sueca. Como se fosse um remake melhorado e não uma readaptação, como era pretendido. Por várias vezes o filme cria um problema de foco narrativo, a história se divide demais ao ponto de o estupro e a vingança de Lisbeth parecerem um fato isolado mais que uma importantíssima chave para construir a personagem dentro do filme. Já quanto a mudança do final, apesar de se encaixar melhor no cinema, é pouco crível. Fincher não é Larsson, ele não teve a capacidade do autor de criar outra saída sem deixar mil buracos na trama.
A coisa é que lá dentro do cinema nada disso incomoda, os defeitos vieram depois junto com o fim do estado de hipnose que o filme me deixou. Não tive um momento sem tensão mesmo já sabendo o que acontece de có e salteado. E isto é crédito de Fincher, assim também como de Daniel Craig e Rooney Mara. A dupla tem uma química que deixam ambos personagens bastante interessantes. Pois com a Lisbeth Salander de Mara surge um novo símbolo feminino no cinema.
Alias, é Salander o ponto alto do longa. Fincher soube manter a pesada crítica social de Larsson quanto a marginalização da mulher e do diferente. Traz questões importantíssimas a serem discutidas e redescutidas. Para tanto ainda há o resto da trilogia para ser adaptada, em breve teremos The Girl Who Played With Fire que mergulha mais profundamente na personagem de Mara. Aí sim, Meryl Streep poderá interpretar de Cleopatra a Oprah Winfrey que o carequinha já terá uma dona.

Os Homens que não Amavam as Mulheres recebeu 5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012



Gil (Owen Wilson) é um roteirista de Hollywood que planeja se mudar pra Paris e usar a cidade de inspiração para o seu próximo filme. Porém Inez, sua esposa, não gosta da idéia e o mantêm ocupado com passeios pela cidade com um pedante amigo do casal. Mas o que parece ser uma viagem normal traz um detalhe rotineiro extraordinário: toda meia noite o nosso protagonista é transportado direto a década de 20 e mantêm conversas e amizades com a elite artística do século passado.
E é simplesmente doce viajar com Gil ao que ele considera como sendo a idade de ouro, conversar com Hemingway, Fitzgerald, Picasso, Brunnel, Porter etc, etc, etc. É uma delícia percorrer os relacionamentos entre estes ilustres, as brigas, os dramas, os ciúmes e o sexo. O roteiro de Allen não se limita ao passado, as cenas do cotidiano presente lhe estimula a refletir sobre tudo aquilo que você aprendeu na noite passada com Salvador Dali e seus colegas surrealistas.
O longa é uma fábula com belo cenário, eventos fabulosos e uma excelente lição de moral: Muitos acham que a época anterior é superior a sua e ignoram aquilo que acontece no momento em que você vive. É o fator nostalgia. É o complexo de Gil, que vai a década de XX, é o de Adriana, que vai a Belle Époque e é o de Toulouse-Lautrec. No fim estão todos a procura de uma Era de Ouro que no fim das contas é o agora mesmo.
Owen Wilson fez o papel que em outras épocas seria do próprio Allen, e o fez muito bem. Ele e todo o resto do elenco parecem estar se divertindo muito em seus papéis. E porque não estariam? Interpretar T.S. Elliot e Cia é um sonho de carreira, e fazer isso numa comédia? Tirar sarro do próprio personagem. Além do que fazer de cada aparição uma gostosa surpresa. Como deve ser bom ser dirigido por Woody Allen.
E o filme é isso: gostoso, divertido e doce. Para se ver numa manhã de domingo e lhe deixar no rosto um sorriso que dura a semana inteira e para se deleitar com cada segundo de inusitado passado. O fato é que se filmado daqui a um século nós já sabemos quem, merecidamente, ocuparia um lugar entre ilustres do nosso presente. O velho, novo e eterno Allen.


Meia-noite em Paris recebeu 4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Diretor e Direção de Arte.
 

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